O que realmente importa é a verdade
O que realmente importa é a verdade.
Ser convincente não deve ser a primeira nem a maior preocupação em um
debate. Foi o que meu amigo Raul me disse, ao repassar a fala de um amigo dele:
não importa se achamos que estamos certos ou errados sobre algo, o que
realmente importa é se o que falamos é verdadeiro.
Para São Tomás de Aquino, a verdade é adequação do intelecto à coisa (adaequatio intellectus et rei). Se considerarmos que o que mais importa é a verdade, então há, necessariamente, uma hierarquia no discurso, segundo a qual deve-se preocupar primariamente em conformar a mente à realidade e dispor dela na nossa comunicação.
A realidade é o fundamento da verdade, e nela percebemos a ordem. Conhecer
é apreender esta ordem no mundo, e explicá-la é nutrir o outro com o
entendimento dela. Além do mais, a mente não apenas compreende a verdade, mas, aceitando as normas da realidade, também as ordena para um determinado fim, razão pela qual reconhece sua ordem estrutural, segundo a qual podem ser instrumentalizadas para um determinado fim. Desta forma, quando o
homem apreende a função biomecânica de um braço humano, abstraindo sua
organização que reproduz o movimento motor, poderá construir algo semelhante.
Assim, pressupõe-se que o que é ordenado é para um determinado fim. Pois a ordem está nas coisas ordenadas, e estão ordenadas aquelas que têm seus
efeitos eficazes, ou que trazem consigo um bem. Em contrapartida, o que é
desordenado é o que está fora do seu próprio fim segundo o seu próprio ser,
isto é, quando o ser perde os seus bens. Em outras palavras, é o próprio mal.
Então, dizer a verdade é o mesmo que revelar algo da realidade, que cabe à
inteligência. Ademais, se a justiça é dar a cada um o que é devido, nada mais
justo que expor ao outro a verdade, pois é próprio da inteligência perceber os
bens e a realidade, e é próprio da razão ser direcionada à verdade. Logo, é devido dar ao outro o conhecimento correto.
Quando comunicada com caridade, a verdade torna-se um bem feito à alma do
próximo. E, da mesma forma que queremos este bem quando o buscamos, devemos
também dar ao nosso semelhante (Evangelho de Mateus 22,39). Assim, o modo e o
que é exposto são importantes, pois orientam com mais clareza e perfeição ao outro sobre as coisas informadas. Neste sentido, a virtude da prudência orienta o modo e o
que expor, pois o prudente faz o que é necessário e justo na sua circunstância.
Já a mentira opõe-se à verdade, pois consiste no desvio intencional do
intelecto contra a realidade. Se expor caridosamente a verdade é uma forma de
amar o próximo, expor a mentira é ir contra o próximo e também contra o
Criador, pois é informar ao outro o que não existe nas coisas como Deus quis na sua
infinita sabedoria. Poderia alguém dar algo que não existe por si? Logo, vã é a
mentira, e a razão dela, em última instância, é ir contra a inteligência ou
razão das coisas, do qual o princípio é Deus.
Quando o Verbo diz, da sua palavra nasce, multiplica e restaura as coisas. Cada palavra
tem um valor infinito, pois os fins contidos nelas são próprios da visão de
eternidade, que está para além do tempo. E nada mais verdadeiro que estas
palavras. Falo como São Tomás de Aquino em Adoro te Devote sobre as
palavras inspiradas do Nosso Senhor. Cristo, como nos ensina: “Eu sou o
caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). Com fé, acreditamos neste sentido que a verdade é
uma pessoa que está sobre qualquer lei temporal e espacial, e sobre qualquer
criatura, pois tudo se submete à ordem e ao poder da sabedoria divina.
Assim, ir contra a verdade é, em última instância, opor-se a Deus. O pecado e o vício subvertem a alma, produzindo ação de desordem no mundo. Com efeito, obscurecem o intelecto, como defende São Tomás de Aquino e Sã Doutrina Católica. E, neste “amor” desordenado de si, confia-se em preservar as faltas e os erros, inclinando-se a justificar-se para livrar-se da culpa na consciência. Segue-se assim em diversos debates no mundo sobre crenças, sobretudo a vaidade e a soberba prevalecem, e por elas o indivíduo mente deliberadamente, pois este já se encontra seduzido pela mentira. Não obstante, a mentira não se desprende completamente da realidade, pois encontra-se nela algum dado real, mas distorcido e sedutor segundo um falso livre arbítrio fundando contra à realidade.
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