Postagens

Uso dos bens na Doutrina Social da Igreja, segundo a compreendo

  Assistindo ao curso da Doutrina Social da Igreja (Católica) – DSI, ministrado pelo professor Carlos Ramalhete, ajudou-me melhor a compreender a organização mais natural e lógica da política em seus diversos aspectos. Ela tem como princípio a mudança do particular ao universal, de modo que, hierarquicamente, a mudança começa na unidade, isto é, na pessoa, e se estende ao coletivo, ordenando-se ao bem comum (princípio da subsidiariedade), e não de princípio contrário – como do coletivo para o indivíduo. Podemos compreender como uma certa ordem política. Parece lógico que a primeira mudança deve ocorrer no indivíduo, pois, quando se propõe a mudança de um grupo de pessoas, propõe-se, na verdade, a mudança de cada indivíduo neste grupo ao bem, para depois exprimir-se, com efeito, no bem comum. Assim é também porque é impossível falar do que não se conhece e, por consequência, dizer praticar aquilo de que não se tem noção. De modo que participar do bem comum exige, primeiramente, pa...

Meditações sobre a Caridade

       Muito se fala em ação de caridade, entendendo-a muitas vezes estritamente como esmola ao pobre, de modo que se a compreende apenas em seu aspecto material, excluindo-se da vida humana o seu devido nível espiritual, que a distingue dos outros animais — como o autor H. D. Gardeil acentua nos níveis da vida em seu livro Iniciação à Filosofia de São Tomás de Aquino , na parte sobre psicologia, da Livraria Duas Cidades (p. 25–27).      De modo que a parte corporal, em níveis de perfeição, se subordina à espiritual, como é mais próprio da ordem natural do ser humano. O intelecto deve governar o corpo, como diz Santo Agostinho , em seu livro Sobre o Livre-Arbítrio , isto para que seja mantida a ordem de sua natureza, preservando-a integralmente. Caso contrário, com a vontade humana desordenada, nascem diversos males sobre si e sobre os outros, tanto no espírito quanto no corpo, como decorre dos relatos das Sagradas Escrituras .     ...

Da comunicação ao Theotokos

  Parte I      Quando eu comentava com meu amigo Raul sobre um livro que tinha comprado, ele costumava perguntar quem era o tradutor do livro mencionado. Pois ele sempre deu ênfase à importância de uma boa tradução, e hoje o compreendo um pouco melhor.      É importante o cuidado com as palavras, porque são o meio pelo qual apontam para as intenções do que se quer dizer. De modo contrário, a deficiência da comunicação poderá causar desvio entre a intenção do comunicador e a mensagem transmitida. Além do mais, o erro ou má expressão tem como efeito uma semelhança com a mentira, no aspecto de causar mau entendimento naquilo que é comunicado. Vale ressaltar que, diferentemente da mentira, que tem como princípio a negação da realidade que é percebida no intelecto, a má expressão não tem o mesmo juízo moral. Isso porque não há necessariamente malícia do anunciante. Contudo, os efeitos podem obscurecer alguma noção da realidade que é comunicada, e q...

A acusação de idolatria e a compreensão católica, segundo a compreendo

       Ouço comumente que vários protestantes e de vertentes evangélicas acusam católicos, por diversos motivos, de idólatras. Com efeito, erram ao julgar as intenções da alma, pois fazem o papel de juiz da condenação eterna, que é próprio de Deus, ao atribuir necessariamente aos gestos este pecado gravíssimo, condenado pelas Sagradas Escrituras. Em hipótese, ainda que algum leigo católico possa vir a acontecer de fazer um ato exageradamente emocional ou algo que comunique algum erro da Sã Doutrina cristã, ele por si não representaria necessariamente o pensamento católico. Tendo em vista que há uma doutrina estabelecida, para fazer um julgamento mais justo sobre a religião como um todo, deve-se considerar no que nós, católicos, acreditamos, segundo a Sã Doutrina Católica e, sobretudo, resguardando-se de julgar os corações dos fiéis, como é aconselhado no Evangelho de Mateus 7,1-5. Porém, acredito que a maior parte das acusações se deve à má compreensão do que realm...

Importância da humildade e da comunhão

       categoria: meditação  teológica        As Sagradas Escrituras nos educam que Jesus Cristo é a verdade (Jo 14, 6). Com isto, reconhecemos a verdade como uma pessoa  —  como sempre reforçava o bispo Dom Henrique Soares em suas meditações: a Verdade é uma Pessoa, o Cristo Nosso Senhor.      Se apreendemos a verdade nas coisas que existem através da razão, então ela é ato do intelecto, como é apresentada na fórmula de Santo Tomás de Aquino . Assim, antes da fundação do mundo, não haveria senão a verdade no próprio intelecto de Deus, do qual procede ao homem a capacidade de conhecer as coisas que existem.      O Verbo encarnado, com infinita caridade, nos educa sobre profundas realidades: a natureza do espírito e o fim para o qual Deus nos criou. Isto porque, ao entregar o incognoscível ao homem por um jeito compatível ao corpo e ao espírito, usou a matéria como instrumento de ensino para coisas q...

O que realmente importa é a verdade

       categoria: meditação filosófica e teológica      Ser convincente não deve ser a primeira nem a maior preocupação em um debate. Foi o que meu amigo Raul me disse, ao repassar a fala de um amigo dele: não importa se achamos que estamos certos ou errados sobre algo, o que realmente importa é se o que falamos é verdadeiro.      Para São Tomás de Aquino, a verdade é adequação do intelecto à coisa (adaequatio intellectus et rei) . Se considerarmos que o que mais importa é a verdade, então há, necessariamente, uma hierarquia no discurso, segundo a qual deve-se preocupar primariamente em conformar a mente à realidade e dispor dela na nossa comunicação.      A realidade é o fundamento da verdade, e nela percebemos a ordem. Conhecer é apreender esta ordem no mundo, e explicá-la é nutrir o outro com o entendimento dela. Além do mais, a mente não apenas compreende a verdade, mas, aceitando as normas da realidade, també...