A acusação de idolatria e a compreensão católica, segundo a compreendo

 


    Ouço comumente que vários protestantes e de vertentes evangélicas acusam católicos, por diversos motivos, de idólatras. Com efeito, erram ao julgar as intenções da alma, pois fazem o papel de juiz da condenação eterna, que é próprio de Deus, ao atribuir necessariamente aos gestos este pecado gravíssimo, condenado pelas Sagradas Escrituras. Em hipótese, ainda que algum leigo católico possa vir a acontecer de fazer um ato exageradamente emocional ou algo que comunique algum erro da Sã Doutrina cristã, ele por si não representaria necessariamente o pensamento católico. Tendo em vista que há uma doutrina estabelecida, para fazer um julgamento mais justo sobre a religião como um todo, deve-se considerar no que nós, católicos, acreditamos, segundo a Sã Doutrina Católica e, sobretudo, resguardando-se de julgar os corações dos fiéis, como é aconselhado no Evangelho de Mateus 7,1-5. Porém, acredito que a maior parte das acusações se deve à má compreensão do que realmente, de fato, nós católicos acreditamos ou de como são as coisas na realidade.

    Pois, católicos acreditam em um só Deus, no mistério da Trindade, assim como é demonstrado na fórmula do batismo — “batizai em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” — confessando Deus uno-trino. No Credo, temos a confissão da fé e o símbolo dos apóstolos, que representa a síntese da fé católica (CIC 183 a 187). Assim dizemos: “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor...”. No Símbolo Niceno-Constantinopolitano: “Creio em um só Deus, Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis. Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai...”. Portanto, deve-se pressupor que todas as crenças católicas estão em conformidade com esta fé apostólica, isto é, não entram em contradição.

Alguns deles fazem este tipo de acusação de idolatria porque, na Igreja Católica, há esculturas. Alegam que nas Escrituras Sagradas, em Êxodo 20, se condena fazer qualquer tipo de imagem, principalmente esculturas. Já outros condenam pelo ato de alguns fiéis se ajoelharem diante de uma escultura para pedir intercessão a um santo, ou pelo próprio ato de intercessão.

O fato é que católicos compreendem o capítulo de Êxodo 20 referindo-se especificamente a ídolos, isto porque, além das partes explícitas nas Escrituras que condenam ídolos, poucos capítulos depois de Êxodo 20, Deus pede para fazer uma escultura de querubins, anjos do céu, sobre a arca (Êxodo 25). Se aceitamos que a lei divina é perfeitamente moral, e que o nosso Deus é o Deus da verdade, que não se contradiz de modo algum, devemos aceitar também que não há problema moral em si em fazer imagens, pois o próprio Deus pediu a alguém para fazê-las. Portanto, não se pode pensar nisso de forma arbitrária, pois seria pensar que a própria lei divina o é, mas não o é. Conclui-se então que não é um mal fazer imagens, logo, o mandamento diz respeito mais à instrumentalização delas no sentido do ato de idolatria, que é a adoração aos ídolos. Ressalta-se, entre apologetas católicos, entre eles Ariel Lazari, o texto bíblico que diz que determinadas coisas eram permitidas devido à dureza do coração dos homens. Era tão visível esta inclinação que logo fizeram um bezerro de ouro (Êxodo 32). Ademais, entre as leis adiante de Êxodo 20, a lei também fala sobre penas de morte, no sentido de “olho por olho e dente por dente”. Porém, compreende-se na nova aliança que devemos amar os inimigos e perdoá-los, porque assim Deus faz com suas criaturas.

Vale destacar que nenhum católico acredita que a lei antiga foi abolida, mas que ela foi cumprida e elevada em Cristo (Evangelho de Mateus 5, 17). Assim, compreendemo-la melhor. Além disso, agora nos é revelado o seu aspecto positivo, em contraste ao negativo do Antigo Testamento, como na linguagem do Catecismo da Igreja (CIC 2052). As leis sagradas se resumem no mandamento do amor — amar a Deus sobre todas as coisas, de todo o coração, de todo o ser, e amar o próximo como a si mesmo — isto sintetiza os 10 mandamentos: os três relativos ao amor a Deus e os outros sete ao próximo, e nos educa em sua forma plena e positiva, pois quem ama não quer ferir o amado.

Além do mais, católicos não consideram determinados gestos necessariamente como um ato de adoração, pois compreendem que é necessário também considerar as intenções. Ora, a idolatria ocorre quando o fiel atribui às criaturas ou às coisas aquilo que é próprio de Deus em essência. Para afirmar que um católico está sendo idólatra, o acusador primeiro teria que provar algo que é mais íntimo da alma: como o fiel compreende Deus e as criaturas, se ele dá ou não a cada um o seu devido lugar na ordem do ser. Ou seja, os atos devem ser compreendidos segundo as intenções e segundo a crença. Portanto, o ato de idolatria não está necessariamente nos gestos, pois os gestos, da mesma forma que as palavras, podem ser ambíguos. Ouvi o exemplo de Victorelius: assim como “manga” pode referir-se à fruta, pode também referir-se à roupa. Esta distinção de equivocidade se dá primeiramente nas intenções do comunicador, reconhecida pelo contexto da fala. E, de forma análoga, um gesto também pode expressar diversas coisas isoladamente. Por exemplo, quando um japonês reverencia outro, ele não compreende que o outro é Deus, mas entende como um gesto de respeito. Da mesma forma era a relação das pessoas com o rei, no qual reconheciam sua autoridade ao se rebaixar. Além disso, os títulos de doutor, mestre, senhor e senhora expressam uma relação de respeito. Respeitar os outros não é tirar o respeito devido a Deus, da mesma forma que amar o próximo não tira o amor devido a Deus. A lógica é justamente o contrário: amamos nas criaturas a obra de Deus e o amor d’Ele por elas, e amamos ao próximo a semelhança que nele há de Deus, pois somos sua imagem e semelhança (Livro do Gênesis 1,26). Assim, honrar os santos, amigos de Deus que estão no céu, é reconhecer o amor de Deus por eles e também por nós, pois todos os bens que lhes foram dados, foi Deus quem deu.

Dentre as hierarquias das criaturas, dedicamos mais respeito a umas do que a outras, segundo sua ordem. Naturalmente reconhecemos autoridade no mundo, começando pela família, pois Deus nos pede: “honrai pai e mãe” (Livro do Êxodo 20,12). Dar honra ao pai ou à mãe não tira em nada a honra infinita de Deus. Quando pais educam seus filhos no bem, estão, na verdade, reconhecendo a autoridade de Deus, da mesma forma quando os filhos honram os pais. Assim é também com os santos que estão face a face com o Criador: se reconhecemos alguma grandeza neles, não é senão proveniente do Criador.

E assim, dar a cada um o que lhe é devido é um ato de justiça. Reconhecer a hierarquia das coisas é reconhecer as coisas como são na realidade. E, como a alguns é dado mais do que a outros, é devido honrar mais a alguns do que a outros. Nesta hierarquia, a honra devida a Deus é infinita e algo que nenhuma criatura poderia dar ou imaginar. Mas o Criador pede o possível dentro da ordem que Ele quis, pois nos pede amá-lo de todo o coração, de todo o ser e de toda a inteligência.

A Santa Virgem Maria, por ser a Mãe de Deus na segunda Pessoa da Trindade, isto é, Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, recebe uma honra maior do que as outras criaturas. Ela foi escolhida para ser Mãe do Redentor. O anjo a saúda: “Ave Maria, gratia plena”, ou seja, “Ave Maria, cheia de graça”. Portanto, Santa Maria tem uma hierarquia elevada entre todas as criaturas, pois é cheia dos bens de Deus.

Não é difícil compreender que, quando dizemos que um bebê nasceu de uma mulher, o cristão entende que Deus põe o espírito humano nela, gerando um filho. Em última instância, nada nasce sem que o próprio Deus o permita. Portanto, muitas criaturas participam da geração e do cuidado. Assim foi com Santa Maria, de modo especialíssimo, pois sua missão foi a mais importante entre as criaturas: gerar o Redentor e cuidar d’Ele.

Sobre a intercessão dos santos, se uma pessoa não católica afirmar que um santo canonizado não faz milagres, o católico poderá dizer que isto é verdade, distinguindo o sentido. Pois todos os cristãos acreditam que há coisas próprias de Deus: santidade, onipotência, onisciência, milagres e criação. Mas Deus permite que as criaturas participem instrumentalmente de seus bens. Assim, nenhum santo tem poder próprio de operar milagres, mas pode agir como instrumento de Deus ou intercedendo a Ele.

Assim como os apóstolos operavam milagres, todos reconhecem que era ação de Deus neles, como está escrito: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Carta aos Gálatas 2,20). Desta forma, pedir intercessão não configura idolatria, mas reconhecimento da participação da criatura no plano divino de salvação.

Deus poderia aparecer a cada um e evangelizar diretamente, mas quis a participação humana, revelando-se às nações por meio dos Apóstolos e de seus sucessores. Assim é a ajuda mútua que expressa o amor de uns pelos outros.

eu

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