Da comunicação ao Theotokos

 

Parte I

    Quando eu comentava com meu amigo Raul sobre um livro que tinha comprado, ele costumava perguntar quem era o tradutor do livro mencionado. Pois ele sempre deu ênfase à importância de uma boa tradução, e hoje o compreendo um pouco melhor.

    É importante o cuidado com as palavras, porque são o meio pelo qual apontam para as intenções do que se quer dizer. De modo contrário, a deficiência da comunicação poderá causar desvio entre a intenção do comunicador e a mensagem transmitida. Além do mais, o erro ou má expressão tem como efeito uma semelhança com a mentira, no aspecto de causar mau entendimento naquilo que é comunicado. Vale ressaltar que, diferentemente da mentira, que tem como princípio a negação da realidade que é percebida no intelecto, a má expressão não tem o mesmo juízo moral. Isso porque não há necessariamente malícia do anunciante. Contudo, os efeitos podem obscurecer alguma noção da realidade que é comunicada, e que não é querida por quem anuncia.

    Por outro lado, não é bastante somente comunicar bem, mas é necessário que o leitor ou ouvinte compreenda bem aquilo anunciado, segundo o significado de cada palavra e no sentido em que elas são usadas. De certa maneira, além do ato de intelecção, exige-se também a vontade de conformar a mente naquilo que é comunicado. Por isso, a comunicação é uma sintonia entre o que é apontado e o sujeito que compreende no intelecto o que é apontado.

    Desta forma, é importante compreender outros aspectos da palavra, como o fato de ela poder ter sentidos distintos, alguns sendo unívocos, outros sendo equívocos, e outros análogos. 

    A palavra manga, de modo equívoco, pode referir-se tanto a uma fruta quanto à parte da roupa. Razão pela qual, com diversas palavras, a gente somente compreende o seu significado pelas intenções do comunicador, segundo o seu contexto.

Parte II

    Portanto, ressalto o cuidado necessário de interpretação, pois muitas palavras não são claras por si mesmas. E, para compreendê-las adequadamente, exige-se muitas vezes um conhecimento prévio de alguma ciência ou filosofia à qual pertencem. Por exemplo, a palavra movimento para Aristóteles não se limita ao sentido de deslocamento físico. Ela possui um significado amplo, que é tanto da física como também do escopo da metafísica. Movimento neste sentido refere-se a toda a passagem da potência ao ato do ser. De modo que a semente da uva, enquanto ato, tem em potência tornar-se o pé de uva, e o pé de uva, enquanto ato, tem potência de gerar o seu fruto, segundo o seu ciclo natural. Como explicado, este movimento não é de deslocamento, mas de outra espécie de mudança.

    Nesta lógica, demonstra-se uma necessidade do agente que atualiza a potência do ser, e é chamada de motor. Ademais, quando é dito a expressão "motor imóvel", o significado de motor é qualificado com um outro pensamento filosófico, pois imóvel, segundo a metafísica aristotélica, é aquilo que é completo em si, e não existe nenhuma potência, mas age em outros seres, movendo-os. 

Parte III

    São, portanto, muitas as palavras que têm sentidos menos usuais. Na teologia, adota-se uma linguagem específica – pois há uma diferença entre a realidade material e a espiritual, e também no modo de descrevê-las – por isto, toda realidade que é superior aos sentidos externos é tratada de modo análogo ao que conhecemos, como nas parábolas do Nosso Senhor Jesus Cristo está para aquilo que apreendemos com os sentidos externos, segundo a forma como a mente humana apreende a realidade.

    No Credo Niceno-Constantinopolitano, então, quando é expressa a realidade revelada sobre a Trindade, é dito que Nosso Senhor Jesus é a segunda pessoa da Santíssima Trindade, compreende-se que são três pessoas e uma só natureza divina, isto é, um só Deus. Quando observamos a respeito deste mistério, sempre voltamos ao que apreendemos com os nossos sentidos, mas por si só é uma forma inadequada de pensar a respeito. Ademais, vale ressaltar que a analogia considera um ou mais aspectos de uma realidade, não todos, de forma que, daquilo que é elevado, ela é limitada no seguinte sentido: enquanto expressa um ou mais aspectos, deixa também de expressar muitos outros aspectos da realidade apresentada. Portanto, toda analogia das coisas elevadas não expressa perfeitamente a realidade apresentada.

    Desta forma, quando deparamos com a expressão gerado eternamente do Pai, não criado e consubstancial ao Pai, quando referida à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, tão pouco podemos pensar que a palavra gerada, seguida de eternamente, esteja no sentido da temporalidade, mas de uma relação que é da ordem supranatural.

     Neste credo, demonstra por negação uma distinção entre a palavra criado e gerado – aquilo que é criado se refere necessariamente às criaturas, enquanto a palavra “eternamente” qualifica a palavra gerado, dando um sentido propriamente supranatural. Além do mais, a palavra gerada não qualificada pela eternidade pode ser usada de outro modo, como quando a mulher pode gerar no ventre um filho.

Parte VI

    Revelado que Nosso Senhor Jesus foi concebido no ventre da Virgem Maria por obra do Espírito Santo. Gerado aqui é no sentido distinto do Credo Niceno-Constantinopolitano. Compreendemos que a segunda pessoa da Santíssima Trindade é eternamente gerada do Pai, porém, na história há o que se chama união hipostática, que é a respeito da união das duas naturezas na pessoa de Jesus Cristo, isto é, compreendemos que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, duas naturezas que não se separam. Jesus recebeu a natureza humana de Maria, contudo, por ser impossível separar a pessoa de Jesus de suas naturezas, dizemos que Santa Maria é Mãe de Deus (Theotokos), porque é mãe da pessoa de Jesus, e não de suas naturezas divina e humana enquanto tais. É errado, porém, pensar que, ao afirmar que Santa Maria é Mãe de Deus, a Virgem Maria teria de ser anterior a Ele ou possuir poder e autoridade semelhantes. Esse equívoco se dá na confusão da noção de causalidade, pois a maternidade não implica superioridade nem anterioridade. Não se infere, a partir da maternidade, portanto, essas questões. Ademais, não se deve compreender que a mãe, por si, tem autonomia de conceber a vida por si, mas que todos provêm de Deus como causa primeira. Desta forma, a concepção virginal de Maria diz respeito à encarnação do Verbo, com a qual o próprio Deus quis assim. E assim, todos os bens de Maria provêm de Deus, como é anunciada pelo Arcanjo Gabriel: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo.” (Evangelho de Lc. 1:26–38)

    O que pode ser difícil para a mente de alguns é pensar sobre esta questão mencionada — como pode um Deus eterno, não criado, nascer de uma mulher, e ela ser Sua mãe? Nesta pergunta, implica-se equivocadamente a compreensão de que Maria é mãe da natureza divina, enquanto, por outro lado, a pergunta também implica na separação da natureza humana e divina na pessoa de Jesus Cristo. Enquanto, na verdade, não é nem uma nem outra coisa.

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