No que reside a perfeição?
No que reside a perfeição?
Nós cristãos acreditamos que Deus
é perfeito, melhor dizendo, perfeitíssimo. Em termos filosóficos, segundo a
filosofia aristotélica e tomista, Deus é puro Ato, o que significa que está
livre de potência. Desse modo, estar livre de potência é a perfeição e
completude de Deus. A potência sugere a mudança, de modo que toda criatura
possui potências, ou seja, é possível que sua potência seja atualizada em ato
e, assim, aperfeiçoada de modo geral. Compreende-se também a perfeição como a
plenitude dos bens. E Deus possui todos os bens, dos quais há participação nas
criaturas.
Ademais, também compreendemos
perfeição nos bens criados, portanto que há perfeições distintas umas das
outras. Melhor dizendo, a criatura pode ser completa enquanto é o seu próprio
ser, e não outro. Assim, o desígnio de Deus em sua criação é perfeito: cada
criatura é perfeita em si mesma, conforme o fim desejado por Deus, ainda que
não possua qualidades e perfeições próprias de outras criaturas. Dessa forma,
há graus e níveis de perfeição, e algumas perfeições não cabem a todas as
criaturas, sendo exclusivas de algumas.
Além disso, para além da
compreensão das qualidades materiais das criaturas, sobretudo da vida
espiritual humana e dos seres angélicos, há a possibilidade da vida
sobrenatural, para a qual Deus nos chama com maior intimidade, desejando-nos
mais próximos d'Ele. Assim, pelo mal do pecado original, que entrou no mundo
através de Adão e Eva, Deus tirou um bem maior. Como diz São Paulo: "Onde
abundou o pecado, superabundou a graça". Isto é, confiamos que Deus tira
maiores bens dos males. Assim, através da Segunda Pessoa da Santíssima
Trindade, Nosso Senhor Jesus Cristo, fomos salvos do pecado, somos agora filhos adotivos de Deus e
temos a possibilidade do Céu, da proximidade com Deus, da bem-aventurança e da
vida eterna. De modo que, como criaturas, somos também aperfeiçoados através do
Batismo e dos Santos Sacramentos.
Além de tudo isto, nosso Deus é
um em três Pessoas, como professamos: "Em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo". Essa união é essencial. Deus nos chama a participar dela
adotivamente, de modo que os salvos serão como "deuses", como diriam nossos
irmãos ortodoxos; jamais essencialmente, mas participando em comunhão dessa
unidade perfeita e perfeitamente unidos à Sua vontade.
Contemplação da ordem criada
A representação do número três
como perfeição, para nós cristãos, parece advir da compreensão da Trindade
revelada pela Santa Tradição e pela Sagrada Escritura. Contudo, coincide também
com a antiga ideia pitagórica de que o número três é um princípio das coisas,
ou ao menos expressão de uma ordem e estrutura comum que pode ser representada
abstratamente pelo triângulo. Não que a causa seja o próprio triângulo, mas que
a causa das coisas expressa uma ordem comum que pode ser representada por essa
forma de modo universal. Assim, algumas formas presentes no universo podem ser
analisadas segundo estruturas mais fundamentais que são representáveis pelo
triângulo, figura de três lados e três pontos.
É incrível que simplesmente
coincida que certas formas presentes no universo revelem aspectos da criação e
recordem a imagem de Deus através de símbolos numéricos ou matemáticos. De modo
que podemos compreender que Deus Uno-Trino é a causa das criaturas, as quais por
vezes manifestam em si princípios e sinais visíveis d'Ele.
Além do mais, já ouvi dizer que o
círculo representa a perfeição, portanto que não há nele início nem fim, não há
dobras nem pontos, mas apenas uma curva contínua. Assim, ele pode simbolizar o
infinito e a perfeição. O universo frequentemente tende a esta forma em
determinadas condições. Vemos isso, por exemplo, nas bolhas de sabão e também
em corpos de grande massa que, sob o efeito da gravidade, tornam-se
arredondados. A esfera aparece frequentemente como uma forma privilegiada
nessas condições, sendo nada mais que o círculo em sua extensão tridimensional.
Ademais, vemos que o círculo pode
ser compreendido a partir de linhas, como representado no cálculo integral, ou
mesmo a partir do triângulo, retornando à compreensão pitagórica do mundo.
Logo, contemplando a esfera e o círculo, podemos recordar simbolicamente uma
divisão de partes que remete ao trino e à perfeição primordial.
Imagino que o triângulo, a “primeira”
forma bidimensional, possa simbolizar um princípio e o círculo, a “última”
forma bidimensional, uma continuidade ou plenitude desse simbolismo, logo que
esta passagem de forma pode remeter simbolicamente na multiplicação dos bens,
com efeito na criação, nas graças e nas criaturas, agora filhos adotivos de
Deus em comunhão com Ele. Cada uma semelhante a Ele em algum aspecto e lado a
lado como filhos amados.
Assim, encontra-se nessa beleza
matemática, que expressa a realidade visível, uma possível leitura de Deus.
Imagino, contemplando as coisas visíveis, nosso Deus presente em todas as
partes. Se cada coisa criada é perfeita e surpreendente por si mesma, e já é
impressionante existir neste universo, parece ainda mais admirável que todas
necessitem mutuamente umas das outras, de modo que o universo é como uma
sinfonia harmônica.
Mais admirável ainda é que a
criação, sendo o que é, tenha sido feita de forma ordenada e construída de modo
semelhante à vontade de Deus, refletindo em algum aspecto o seu Criador. Assim,
quando olhamos para ela, vemos refletido algo d'Ele.
Isso torna a criação ainda mais
incrível e leva na possível resposta para pergunta: Deus poderia ter feito sua
criação de modo diferente? Para mim, sendo a criação imagem de Deus, parece um
indício de que Deus se importou com a ordem de tal modo que sua obra está para
além da mera beleza e funcionalidade material. Sua beleza e sua funcionalidade
residem precisamente em ser imagem d'Ele.
Perfeição do intelecto humano
Assim vejo que, conhecendo as
criaturas, é possível compreender um pouco sobre Deus. Conhecendo o homem, que
é imagem de Deus, conhece-se ainda mais sobre Deus. Lembra da frase memorável
atribuída ao oráculo de Delfos: "Conhece-te a ti mesmo". Pois o ser
humano, sendo o mais perfeito entre as criaturas visíveis, é aquilo que temos
de mais completo para compreender naturalmente a realidade criada.
Porém, pela limitação própria do
intelecto da alma humana, é impossível compreender perfeitamente outros níveis
da realidade. Por isso, acreditamos que a Revelação, que nasce na tradição
judaica e alcança sua plenitude em Cristo, é o maior auxílio e aperfeiçoamento
do intelecto que possuímos, além daquilo que é possível pela ação sobrenatural
de Deus sobre nós.
Creio que a perfeição do
intelecto reside não somente no conhecimento, mas sobretudo na reta adequação
do intelecto à realidade – como diz Santo Tomás Adaequatio intellectus et rei.
Pois é possível possuir um intelecto bem ordenado sem conhecer todas as coisas.
Ainda que o conhecimento possa aperfeiçoar a inteligência, não é
necessariamente sua causa. Ou melhor dizendo, há tipos distintos de
conhecimento, e alguns dispõem e auxiliam melhor o intelecto à sabedoria.
Perfeição da harmonia universal
Há inegavelmente uma infinidade de coisas criadas, muitas
das quais ainda não conhecemos. E, como disse, cremos que todas são perfeitas
segundo como foram criadas. Assim, nesta ordem admirável, bela e verdadeira, há
gradações nas criaturas, algumas mais perfeitas que outras segundo sua
hierarquia natural, e todas importantes segundo o seu desígnio. A terra, por
exemplo, embora não possua vida, direitos ou dignidade como os seres humanos,
fornece, juntamente com outras propriedades e seres, aquilo que é indispensável
aos outros animais e a nós: o nosso alimento material. Podemos assim atribuir a
muitas coisas materiais uma importância para a vida. A luz, por exemplo, é
indispensável a toda vida terrena existente. É fonte de vida para as plantas e,
das plantas juntamente com os minerais, provém boa parte do nosso alimento. Assim,
para além de uma cadeia comum de causa e efeito, há uma comunhão natural entre
as coisas, comunicada por suas relações e trocas naturais. Uma coisa move
outra, que por sua vez move outra, e todas dependem, em última instância, do
Primeiro Motor, que é Deus. Assim, vemos uma ordem harmônica entre as
hierarquias dos seres. Tudo é naturalmente comunicado.
Logo, dos seres, desde o nível puramente material,
ascendendo ao vegetal, ao animal e ao humano, há uma diversidade orquestrada
para um fim, da qual atribuímos beleza. Podemos pensar nesta beleza como um
coral de diversas vozes. A voz do homem tende ao grave e a da mulher ao agudo.
Esta particularidade dos sexos dá à música um contraste que é belo,
principalmente quando as notas estão harmonizadas entre si. É a comunhão entre
os dois. Os diferentes tornam-se um: uma música. Ademais, além do sexo, a
idade, que reflete as potências corporais atualizando-se no ser humano, dá
diferentes tons. Assim, esta aparente "imperfeição", segundo o estado
ou ato que se atualiza e que é passageiro, oferece a possibilidade de enriquecer
a música.
Parece-me muito mais belo o mundo ser diverso em seres, potências e "carismas" do
que monótono, pois a diversidade é querida por Deus, assim como podemos
observar. Nas orquestras podemos ver a diversidade de instrumentos, cada um com
notas diferentes e particularidades próprias. Contudo, quando orquestrados,
todos os distintos tornam-se um. Fazem parte de uma unidade, e nisso reside uma
beleza.
Na pintura, a luz é de suma importância, pois é ela que
permite aos olhos enxergar as coisas que dela participam. Dessas coisas
existentes conseguimos replicar, abstrair e variar novas formas, segundo cada
linguagem artística. Ademais, entre as cores dos pigmentos, as primárias são
três: magenta, ciano e amarelo. Estas procedem de uma unidade mais fundamental
presente na própria luz. Assim, se já é bela a monocromia do preto e do branco,
muito mais bela é a diversidade das cores quando harmonizadas entre si. São
novamente coisas distintas que fazem uma unidade ordenada. Aliás, a disciplina
da composição exige precisamente isto: a relação entre diversas unidades que se
comunicam de alguma forma e constituem uma nova unidade, ainda mais bela quando
ordenada.
Muito bom. Parabéns!
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