Uso dos bens na Doutrina Social da Igreja, segundo a compreendo

 

Assistindo ao curso da Doutrina Social da Igreja (Católica) – DSI, ministrado pelo professor Carlos Ramalhete, ajudou-me melhor a compreender a organização mais natural e lógica da política em seus diversos aspectos. Ela tem como princípio a mudança do particular ao universal, de modo que, hierarquicamente, a mudança começa na unidade, isto é, na pessoa, e se estende ao coletivo, ordenando-se ao bem comum (princípio da subsidiariedade), e não de princípio contrário – como do coletivo para o indivíduo. Podemos compreender como uma certa ordem política.

Parece lógico que a primeira mudança deve ocorrer no indivíduo, pois, quando se propõe a mudança de um grupo de pessoas, propõe-se, na verdade, a mudança de cada indivíduo neste grupo ao bem, para depois exprimir-se, com efeito, no bem comum. Assim é também porque é impossível falar do que não se conhece e, por consequência, dizer praticar aquilo de que não se tem noção. De modo que participar do bem comum exige, primeiramente, participar do bem direcionado na moral, o qual depois se torna comum ao próximo.

Assim é dito que, nesta lógica, partindo daquilo que está mais próximo, do indivíduo ao ambiente familiar, depois preocupar-se com os seus vizinhos da rua, para depois, se necessário, no bairro, e por fim na cidade (exemplo do professor Ramalhete) – dando ao indivíduo uma participação na política mais eficaz, segundo sua própria compreensão do espaço em que vive.

Entre os diversos aspectos gerais que propõe a doutrina, gostaria de meditar sobretudo na importância da forma de usar os bens (destinação universal dos bens).

Vale destacar que, segundo a teologia, os bens têm como princípio em Deus, que é o próprio bem em pessoa, e, por este motivo, sua criação é assim boa, desta forma, também o é sua ordem natural. Portanto, compreende-se como bem não apenas o ser, mas também todas as suas qualidades ou atributos que estão dentro de sua ordem querida por Ele – de modo que existem bens materiais e imateriais.

Como exemplo, podemos imaginar o bem dinheiro para construir o bem escola, que tem como finalidade ser espaço de educação, de forma que é preciso usar os bens do conhecimento para educar – aqui são destacadas duas formas de usar os bens. É evidente que o ensino não provém dos bens materiais, mas do intelecto que participa dos bens imateriais de Deus.

Além do mais, há um meio-termo entre ambos: um pode ser estrutura ou instrumento, enquanto o outro a forma para o fim desejado. Por exemplo, através do instrumento violino, nas mãos de um bom músico, há a potência de dele saírem belas músicas. Aqui, neste sentido, o músico não ensina a música, mas usa o instrumento para tocar os corações através do som.

Desta maneira, podemos pensar diversas formas de usar os bens, e cabe a cada um fazer a melhor forma de uso. Como exemplo, o professor Ramalhete cita o excelente violino Stradivarius, que pode ser melhor usado nas mãos de um excelente músico, pois assim haveria melhor aproveitamento do seu som, que é melhor extraído por um bom músico, aproveitando todo o seu potencial como instrumento. Muitas vezes, na realidade, isso não é perfeitamente possível, mas a reflexão aqui é, na verdade, o modo como o bem é usado, pois o fim último de tudo está em Deus. Vale destacar que ter bens não é ruim em si, mas a questão surge quando eles se tornam vãos por falta de uso.

Isto traz-nos a reflexão de como usamos os nossos bens: se, com a nossa empresa, com o nosso serviço, com os nossos bens, fazemos algo concretamente bom no mundo. Refletindo sobre isso, caiu-me muitas vezes a possibilidade da vaidade no conhecimento. Perguntei-me se as coisas que aprendo não seriam ainda melhores se se externassem de alguma forma, e se, ao não compartilhá-las, não se tornariam vãs. Sei que muitos conhecimentos nos levam à contemplação de outros níveis de realidade — não falo desses —, mas, por exemplo, de ser um músico e não querer tocar em público. Ainda que não pareça um mal em si essa escolha, podendo haver diversos motivos, não tira o fato de que parece ainda mais nobre compartilhar a beleza que existe no bem tocar músicas para os outros.

Essa lógica freia as nossas curiosidades e, muitas vezes, a nossa vaidade. Muitas pessoas querem ter dinheiro para tornar a vida mais tranquila, não é mau querer viver bem, porém, quando isso se torna motivo contra a nossa ação no mundo, torna-se vã essa vontade.

Há uma frase que reflete bem sobre a importância da noção dos nossos bens, a frase popular do filme do Homem-Aranha: “Com grandes poderes exigem grandes responsabilidades”. O poder podemos compreender como nossos bens: não é apenas ter potencialmente força, mas há uma grande responsabilidade nossa no mundo à medida que os nossos bens aumentam. Pois não seremos julgados apenas por aquilo que fizemos, mas também por aquilo que deixamos de fazer, segundo nossa apreensão desses bens.

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