Meditações sobre a Caridade

 

    Muito se fala em ação de caridade, entendendo-a muitas vezes estritamente como esmola ao pobre, de modo que se a compreende apenas em seu aspecto material, excluindo-se da vida humana o seu devido nível espiritual, que a distingue dos outros animais — como o autor H. D. Gardeil acentua nos níveis da vida em seu livro Iniciação à Filosofia de São Tomás de Aquino, na parte sobre psicologia, da Livraria Duas Cidades (p. 25–27).

    De modo que a parte corporal, em níveis de perfeição, se subordina à espiritual, como é mais próprio da ordem natural do ser humano. O intelecto deve governar o corpo, como diz Santo Agostinho, em seu livro Sobre o Livre-Arbítrio, isto para que seja mantida a ordem de sua natureza, preservando-a integralmente. Caso contrário, com a vontade humana desordenada, nascem diversos males sobre si e sobre os outros, tanto no espírito quanto no corpo, como decorre dos relatos das Sagradas Escrituras.

    Na teologia, compreende-se a caridade de forma mais ampla, como uma virtude teologal que considera o ser humano em sua integridade, em corpo e em espírito, segundo o seu princípio original que vem de Deus. Ademais, toda verdadeira caridade vem de Deus, que é princípio de todos os bens, como causa primeira. E, entre os bens que Ele nos fez, está aquele que também eleva o ser humano: quando o Verbo se fez carne, segundo o plano da salvação para com a alma humana. De modo que se contrapõe a todo o mal e aos efeitos da alma decaída pelo pecado original — Nosso Senhor Jesus Cristo quer purificar-nos e santificar-nos.

    O apóstolo São Paulo reconhece que é Deus quem realiza as boas obras através dele, cooperando assim como instrumento de Deus para o bem do próximo (Gl 2,20). Portanto, a caridade funda-se neste princípio: na vontade de Deus.

Na passagem de Maria de Betânia lavando os pés de Jesus Cristo com um perfume de grande valor, a fala de Judas Iscariotes, segundo as suas intenções reveladas pelas Escrituras, manifesta algo que é essencialmente contra a caridade e que, por vezes, é confundido com um bem (Jo 12,1–8). Enquanto isso, na mesma passagem, em contraste, revela-se também a verdadeira caridade no ato de Maria, segundo a sua boa intenção.

    A mulher, nesta passagem, faz algo fundamental da caridade: o amor primariamente devido a Deus, subordinando-se a Ele. E é nisto que se fundamentam todas as coisas criadas, pois tudo deve voltar-se ao seu Criador, é nesta mesma vontade divina que todas as coisas são como são criadas, perfeitas e boas, segundo o plano divino.

    Assim, o primeiro mandamento exige exatamente esta inclinação, o que é próprio da natureza do ser humano: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt 22,37–38), enquanto o segundo maior mandamento “ amar o próximo como a si mesmo “, é consequência do primeiro.

    Toda caridade é ordenada pelo amor a Deus, ao qual todo ser deve submeter-se primeiramente, de modo que amar as outras pessoas é consequência desta primeira prática. Portanto, a ordem original do mandamento é também a ordem original do amor. Assim, a caridade é fruto desta ordem devida.

    Judas Iscariotes, de modo contrário, inverte esta ordem em seu coração. Com efeito, em vez de pensar que todos os nossos bens são devidos a Deus e aos seus desígnios, ele manifesta uma falsa preocupação com o pobre ao dizer: “Por que não se vendeu este bálsamo por trezentos denários e não se deu aos pobres?”, enquanto o seu coração se inclinava à maldade. E, neste sentido, não há verdadeira caridade, pois há nele uma falsa preocupação com o próximo. Além do mais, o texto sagrado revela suas intenções mais internas, ao dizer que falava assim não por ser propriamente caridoso, mas por ser ladrão.

    Se a caridade não toma a devida ordem do amor, consequentemente poderá haver apenas uma imagem vazia da caridade, de onde nasce a hipocrisia. Judas Iscariotes, como dito, não se importava com o pobre, mas revela, nesta passagem, uma preocupação consigo mesmo sob a aparência do próximo, o que é próprio de uma falsa compaixão. Isso acontece porque, no amor hierarquicamente desordenado, existe também um amor de si desordenado.

    O princípio da caridade muitas vezes visa ao aspecto da dignidade humana, sendo o homem imagem e semelhança de Deus. O Criador quer a nossa verdadeira felicidade, querendo compartilhar conosco a Sua bem-aventurança. Além do mais, há o cuidado com as outras criaturas que Ele também criou. Neste sentido, parece com a própria ideia de justiça, que é dar a cada um o que lhe é devido (como Deus quis). Porém, a caridade vai além deste aspecto, pois funda-se no mandamento do amor, que considera doar mesmo quando os bens não são devidos ao outro.

    De modo que é assim que Deus sempre faz, sendo fonte de toda caridade. Ao criar o mundo, todas as criaturas têm uma certa dívida de ser: dos seres viventes, a dívida da vida; da alma; do espírito. Essa dívida pode ser entendida como uma dívida de amor. O que Deus nos pede não é pagar essa dívida, mas somente dar o que podemos dar, segundo o nosso nível de ser, como é dito no primeiro mandamento. Pois o nosso ser não compreende nem mensura perfeitamente o valor de todas as coisas que existem. Do mesmo modo, Deus continua dando-nos mais e mais, sem que possamos retribuí-Lo. Ele nos deu, por sua misericórdia, através do sacrifício de Jesus Cristo, a possibilidade do Céu, o qual não nos era devido por natureza.

 

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