A pobreza e a estabilidade
I
Ontem, dia 4 de outubro, foi dia de São
Francisco de Assis.
Um Santo que escolheu a pobreza e
viveu de amor, aquele que soube amar e louvar a Deus através das criaturas. Viu
a grandeza da vida de Cristo, nosso Deus, e quis imitá-lo.
O Senhor Jesus nasceu pobre,
entre os animais, numa manjedoura; é o Rei que foi coroado com espinhos, em vez
de uma coroa de ouro ornamentada com joias preciosas; mesmo tendo o domínio de tudo, deixou-se ficar
nu na Cruz, não impediu a própria dor e a humilhação. Morreu apoiado sobre o
mesmo tipo de material de trabalho, a madeira, que foi peso e também apoio do corpo. Trabalhou e
serviu até o fim, doou-se até o fim.
II
Mostrou-se na Cruz uma imagem de um Deus pobre, assim como Ele nos chama a ser pobres de espírito. Não só ensinou, mas praticou tudo aquilo que ensinava.
Santo Tomás disse em adoro te devote: “na Cruz
ocultou-se sua divindade...”, e, meditando, escrevo também: ela transparece através do amor
que transbordava: “Perdoa-lhes, Pai, eles não sabem o que fazem”. Ainda que
todo o ódio e mal o perseguissem por causa dos vícios e da imoralidade de quem o
crucificava, das más inclinações dos
inimigos por causa do pecado, que somos todos nós quando escolhemos o mal, o Senhor perdoou e com
clareza, conhecendo a natureza humana, sem mágoa, sem ressentimento da dor extrema que sentia e, pela maior
injustiça feita, viu e quis o amor possível e concreto na humanidade. Que é plantado, que
floresce, que se multiplica ao doar. Creio que por isso dizem: “o sangue dos mártires são como
sementes em terra fértil”, a matemática de Deus, para além dos princípios materiais, de que
aquilo que é repartido divide-se, torna-se naturalmente menor; no espírito,
aquilo que é repartido multiplica-se. É o pão da eternidade de cada dia, que ao repartir, aumenta.
Deus aceitou o extremo do que não
merecia na infinita honra, plena e eterna soberania. E tudo isso ensina muito sobre a vida, sobre
o poder, sobre a ordem, sobre a hierarquia, sobretudo da pobreza.
III
Muito se diz sobre a pobreza, mas
o que ela é? Pois, do chão que pisamos, seremos o pó pisado pelos outros, assim
como um tapete; nascemos nus, frágeis, naturalmente sem bens materiais,
ignorantes, sem conhecimento sobre o mundo, e morreremos sem bens materiais. A
condição e inclinação natural do ser é nascermos pobres, como os outros
animais, apesar de nossa dignidade ser infinitamente maior pela semelhança a
Deus. E, com a força e o suor do trabalho, nos sustentamos com alimento
perecível, que logo precisará de mais trabalho, numa luta sucessiva contra a
miséria e contra a morte. O bom governo do homem pode trazer uma boa sensação de estabilidade e controle da natureza.
Sabemos que, pelo amor, é doado
aos filhos aquilo que proporciona o trabalho, é a força do amor que sustenta a
família, e a pobre criança que nasce sem bens, e que não tem preocupações, é
alimentada pelos pais. Ela cresce e vê nos pais uma certa estabilidade. Os bons
pais figuram o Pai Celeste. É uma inclinação natural ao bem do próximo.
Mas não há plena estabilidade
nisso e em nada terreno, quando toda matéria se movimenta, quando o homem é passível de
corromper-se todos os dias, quando a natureza não é possível de ser dominada
pelo homem. Então, todo mal volta-se contra o bem. Tudo é passível de perecer a
qualquer momento, todos os bens e até nosso ânimo. Podemos achar que temos
tudo, mas tudo poderá virar pó em um instante. Como diz Santa Teresa de Ávila:
“Tudo muda, tudo passa, só Deus não muda”. Tudo é contingente, somente Deus é
necessário, como é exclamado pelos filósofos escolásticos sobre os seres.
Vivemos uma condição na qual
acreditamos possuir coisas, sejam materiais, instrumentais, inteligência,
emprego ou saúde, mas nada disso é absoluto e absolutamente estável, parafraseando o bispo Dom Henrique
Soares.
Em certo sentido, é verdadeiro
que temos algo e temos posse das coisas e propriedades, não é ilusão, mas não é
prudente agarrar-se a essas coisas com plena certeza de que elas estarão lá
amanhã, pois, se nos agarramos nelas e elas desabarem, cairemos também, juntos
com a sensação de estabilidade absoluta que tínhamos. Com efeito, desmorona a
fé e a esperança. Pois somente Deus permanece.
Tudo que se apoia em Deus
configura-se nessa permanência, naquilo que é realidade primária, fundamental e
absoluta, de onde nasce toda a criação. Toda lei não se esvai ou torna-se pó
como a matéria sem vida. Ele é o nosso alimento imperecível, diante de tudo que
desmorona e tudo que se rebela.
IV
Confesso que passei bastante
tempo pensando na passagem bíblica “bem-aventurados os pobres de espírito,
porque deles é o Reino dos céus”, pois ouvi diversas vezes “pobres de espírito”
num sentido depreciativo, e, há poucos meses, na missa, foi lido esse texto e,
animado, esperei para ouvir a homilia para compreender melhor essa frase. Ouvi
atentamente. Compreendi a relação de pobreza de espírito e humildade, mas
sentia que faltava compreendê-la melhor. Então, levei essa dúvida comigo, do
que de fato significavam essas palavras, para entender melhor o que é a pobreza
dita e a pobreza de espírito.
V
Há poucas semanas, numa
sexta-feira, participei da aula do curso de teologia e história da Igreja.
Nesse dia em especial, o professor era o Frei Eldi. Era uma aula fora do tema
do curso, sobre São Francisco de Assis. Contou histórias sobre a devoção dele a Deus, e o
amor à pobreza, a amada pobreza. Parece estranho ouvir isso, quando o
senso comum e o imaginário popular são de que a pobreza deve ser evitada a todo
custo e é algo extremamente ruim. Porém, não se deve confundir miséria com
pobreza e também compreendê-la no sentido empregado. Pois pobreza está no
sentido de esvaziar-se, como o Frei pontua. Meditando sobre essas palavras e reforçado por outras palavras,
vejo que não é no sentido de deixar de ter coisas, de ser contra a matéria e os
bens, pelo contrário, mas sobretudo de não deixar que essas coisas nos dominem
para cair numa idolatria chamada materialismo ou no amor desordenado aos bens. Não
somente isto, mas mais do que isso, como também o significado dessa palavra
representa uma condição do humano de enxergar sua própria condição,
reconhecendo o seu fim, onde ele encontra a felicidade através de Deus, não nas
coisas temporais. É deixar de se preocupar com a condição em que se encontra,
não se paralisar na condição atual, mas fazer o que é possível e com nada mais
se preocupar. Está também na caridade, que sobretudo revela o amor dentro do
coração. É compreender a hierarquia das coisas e o lugar das criaturas,
compreendendo as coisas no seu devido lugar, que Deus está sobretudo e que,
como criaturas, somos irmãos necessitados.
Acredito que ninguém em boa consciência que afirma a soberania de Deus despreza o alimento que come, que
despreze os seus bens próprios, pois, ainda que não note, reconhece que cada
coisa tem o seu devido lugar e valor.
Compreender a própria situação
traz-nos uma outra palavra fundamental, que é a humildade. Nas ações,
esvaziar-se é também desprender-se de si, da própria imagem, da própria
condição material e imaterial. Só assim é possível dizer: bendito seja Deus por
tudo, ou por tudo seja louvado, nosso Senhor, e em todas as situações, ainda
que difíceis, ainda que incompreensíveis. Pois compreende-se através da fé que,
no fim das coisas, há uma eternidade de bem-aventurança, que é infinitamente
maior que todo o mal visível e invisível.
Uma única palavra me fez
compreender melhor a dita pobreza amada por São Francisco, pois pobreza não se
trata de dinheiro ou de riqueza, nesse sentido, mas de deixar o sol iluminar e
a chuva cair, como a natureza das plantas aceitam. As plantas crescem com isso, nosso
espírito cresce sendo pobres de espírito, iluminado e nunca desamparado
pelo Criador.
Como disse também o Frei na aula,
citando Santo Tomás de Aquino, Deus esvaziou-se ao ponto de, na Cruz, esconder
sua divindade; na Eucaristia, sua humanidade.
Que o Senhor nos faça humildes de coração e pobres de espírito.
Podemos orar:
“Jesus, manso e humilde de coração, fazei nosso coração semelhante ao vosso.”
São Francisco de Assis, rogai por nós
Data de publicação 05/10/2026
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